Será que podemos falar de amor?

Vivemos em um tempo em que a palavra amor não designa mais o seu sentido próprio porque vêm sendo revestida de muitos outros significados que são contra-sensos ao seu sentido original. Não pretendo fazer aqui toda uma digressão sobre os diferentes usos dessa palavra através dos tempos, mas gostaria de compartilhar com o leitor algumas reflexões sobre o assunto.

Desde o início dos tempos a idéia do amor acompanhou os homens em sua busca de compreender os outros homens. De uma forma geral, porém, ela se refere a idéia de um relacionamento onde haja uma decisão e um compromisso recíproco.

Mas, vejamos como estamos vivendo o amor em uma época em que somos envolvidos pela mentalidade do efêmero, da inconseqüência nos atos, da ilusão da felicidade comprada em qualquer esquina? A máxima ouvida da esquina dos bares aos consultórios psiquiátricos é que estamos sofrendo porque queremos ser felizes!!!

Não é contraditório? A outra frase constante é que sofremos porque queremos ser amados, reconhecidos, valorizados, especiais. Assim, precisamos comprar o carro do ano, a roupa de grife, ocupar um cargo importante e conquistar, seduzir e convencer a pessoa desejada que podemos lhe dar tudo que ela sempre quis.

Dessa maneira passamos das coisas que podemos comprar para as pessoas que podemos possuir, e, chamamos isso de amor? Não é de se admirar que a doença do século seja a depressão e o vazio existencial.

Por que, afinal, estamos sofrendo tanto? Tantas carências, tantos vazios, tanta solidão? Dirão alguns que o homem é um ser da falta, ou que é um ser desejante, sempre insatisfeito. Dirão outros que é porque o ser do homem tem um mecanismo autodestrutivo dentro de si e por isso busca o sofrimento.

Dirão outros mais que não existe o amor ao outro, existe o amor a mim mesmo e que busco no outro aquilo que quero para mim. Sendo assim, o encontro com o outro é sempre uma frustração, porque o outro está sempre aquém daquilo que espero para mim. O resultado é um conflito necessário e um fracasso inevitável do amor, concluirão, num raciocínio lógico, outros mais.

Contudo, em nenhuma outra época da história humana tivemos acesso a tantos livros e artigos falando da importância do amor para a felicidade humana. Muitos apontam como razão para as doenças de toda ordem, para os comportamentos anti-sociais, para os descontroles psíquicos, fobias, pânicos e toda sorte de infelicidades humanas, exatamente o fato de não terem recebido amor – concordamos plenamente com essa realidade psicológica, afinal é com esse fato que, como psicólogos, trabalhamos todos os dias. Mas, o pior é que a humanidade continua sofrendo. Como? Se nunca tivemos tantos recursos para ser feliz? O que nos falta?

A sociedade moderna oferece milhares de opções, possibilitando a livre escolha de valores e de relações; paradoxalmente, porém, nunca o homem se sentiu tão isolado, desconectado e esvaziado de sentido como nesse nosso tempo tão… moderno (!?).

É interessante observar que a ciência deu milhões de respostas aos homens, explicou-lhes sua história, seu comportamento, seu psiquismo. Deu-nos muitos “porquês”, mas não conseguiu nos dar um “para que” viver. Diante de tantas informações o homem se ocupa e se preocupa, mas não vê significado em nada disso. A necessidade de amor passa a ser mais uma “descoberta” científica, mais uma receita, mais uma coisa que devemos ter para sermos satisfeitos e completos.

Precisamos de amor. É fato. Qualquer pessoa sabe hoje que a criança precisa ser amada, aceita e valorizada pelos seus pais. Depois pelos professores, amigos, namorado (a), esposo (a), filhos (as), netos, etc. Se nesse caminhar humano houver uma falha nesse processo de receber amor, então, estamos perdidos. Estamos condenados ao fracasso, a depressão, a infelicidade nos relacionamentos vários.

Se sofremos só pode ser porque alguém nos faltou com amor: nossos pais não nos amaram como deveriam, nossos professores não nos compreenderam, nossos amigos nos abandonaram, nosso conjugue só pensa nele mesmo, nossos filhos foram embora, e, chegamos ao fim da vida sem saber para que vivemos.

Por outro lado, e isso também é fato, para sermos amados dependemos que alguém resolva nos amar. E, como não podemos obrigar alguém a nos amar, precisamos de uma garantia: só posso amar se o outro me amar primeiro.

O amor vira uma barganha. Mas o outro não quer correr o risco de amar quem não o ama… Estamos todos condenados à solidão? Passaremos pela vida cobrando o amor que não nos foi dado? Culpando o mundo pelo nosso sofrimento, pois esse nos deve amor?

Pensemos, ainda, na hipótese de sermos bem sucedidos em nossas exigências de amor; como iremos acreditar em um amor exigido ou trocado? E se acabarmos amando? E se perdermos quem compramos por um alto preço? Então, conclusão óbvia, se amar é sofrer então é melhor não amar. Mas se não amarmos, como vimos, não acreditamos que somos amados. Caímos em um círculo vicioso.

Assim, teremos que declarar que o amor não existe, e, nossa resposta à pergunta inicial seria, não. Não podemos mais falar de amor. Podemos falar de paixão, desejo, afetividade, sexo, obrigação, negociação, posse, objetos… Não de pessoas nem de amor..

Não é angustiante essa conclusão? Acabar com o casamento, desistir de ensinar nossos filhos o respeito ao outro, não falarmos mais de ética, nem de valores nem de vida? Mas, como conhecemos o ser humano através da abordagem direta de seu próprio inconsciente, vamos começar de novo. Desta vez por outro caminho.

Definimos inicialmente o amor como sendo uma relação entre duas pessoas que implica em decisão e compromisso. A palavra decisão diferencia-se da palavra escolha.

Segundo Giovanetti (2001, 2002) o conceito de escolher está ligado a uma opção de desejo, sem implicação de mudança na direção da vida. O conceito de decidir, por outro lado, implica em liberdade de resposta em relação a um projeto vital, que inclui renuncia e transformação, pois determina uma mudança de direção na vida, por uma Verdade que nos ultrapassa.

Liberdade, por sua vez, não é uma liberdade de se fazer o que quiser, mas uma liberdade para realizarmos aquilo que já somos potencialmente. E o que somos?

Ensina-nos Vaz (1991, 1992), e a ADI confirma, que não somos só corpo nem só psiquismo, mas somos também uma dimensão noológica (Moraes, 2000). Isso é importante porque as duas primeiras dimensões sofrem os efeitos dos condicionamentos vários e a dimensão noológica é livre desses condicionantes. É por causa da existência dessa dimensão, essencialmente humana, que podemos falar de liberdade, de decisão, de realização e de Amor.

O amor é um ato livre, que, por sua vez, é um ato sem causa, pois o próprio ato livre é a causa ou o início daquilo que surge. Ou seja, ser livre é não depender nem da ação de algum outro nem de algum outro condicionante para agir. Ser livre é poder decidir amar, sem depender que um outro ame primeiro, porque isso não seria decisão, mas submissão. Ser livre inclui, então, a relação de intersubjetividade que implica em assumir a responsabilidade por aquele a quem decidimos amar.

Podemos escolher coisas e até pessoas para termos momentos de felicidade. Mas não podemos ter amor. O ter pode ser comprado, o ser só pode ser realizado, por uma decisão livre e gratuita. O amor não pode ser cobrado, pois deixaria de ser amor. Assim, só podemos ser quando amamos. Amar implica em decidir por um Bem maior, que nos transcende, permitindo a construção de um mundo compartilhado, onde assumimos a alegre missão de ajudar um outro a crescer em sua humanidade.

Porém, nessa tarefa, a nossa vida se enche de sentido, pois vamos nos realizando nesse processo de descoberta de nós mesmos a partir da descoberta do outro que – descobrindo o amor, através de nós – também se abre para nós. Vamos desfazendo o intrincado novelo no qual nos emaranhamos tentando garantir a nossa felicidade. Não somos mais dependentes de sermos amados, pois a nossa realização se dá na medida que nós decidimos amar. Não é sacrifício ou anulação de nós mesmos. É possibilidade de concretização do verdadeiro motivo de nossas existências.

Amar não é sorte nem escolha. Não é sorte, porque não depende do destino. Não é escolha porque podemos escolher errado. É decisão, pois essa é soberana, e pode fazer dar certo. Se somos capazes de tantas renuncias para realizarmos um projeto profissional, escolar, etc., porque desistimos tão facilmente de nossos relacionamentos? Diante de um má escolha podemos sempre nos reposicionar procurando enxergar o mundo sob o olhar do outro, ajudando-o a aprender a amar e ser mais livre para ser aquilo que ele deve ser.

Amar é um ato intransferível, ninguém pode amar no meu lugar. Contudo, ele tem força de abrir, com as chaves do amor verdadeiro, que tudo crê, tudo espera, tudo sustenta… o coração do outro, reconstruindo nossos relacionamentos, construindo uma humanidade mais humana. O resto – a profecia, a ciência e a fé – nada são se não houver amor.

Diz-nos Tillich (1976), que o ser humano é o único ser da natureza que pode contradizer o seu ser essencial, isto é, ele pode decidir não ser livre, não viver e não amar. Porém, contradizer esse anseio humano leva ao sentimento de culpa, a auto-rejeição e ao sentimento de estar condenado, não a um castigo externo, mas ao desespero de haver perdido o próprio destino.

Chegamos, assim, a uma conclusão, podemos e falar de amor. Ele é o único projeto humano que é eterno. Não uma eternidade que dura enquanto durar a satisfação, o desejo, a paixão ou o interesse. Mas que é infinito porque dá sentido às nossas vidas hoje e nos impulsiona para construir um futuro que realmente valha à pena.

Os filhos e os filhos de nossos filhos não precisam de coisas, nem só de carinho e atenção, eles precisam aprender a amar e certamente seguirão os modelos de amor que viram entre os seus pais. Portanto, vamos construir um mundo mais humano e verdadeiro para os nossos filhos?

Autor: Maria Clara Jost de Moraes

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