Watchmen


Quando um certo Edward Blake é assassinado por defenestração de seu apartamento em Nova Iorque, o solitário e incansável vigilante Rorschach se põe a investigar o caso. Ele logo descobre que Blake não era um rico qualquer, mas tinha sido ninguém menos que o Comediante, um super-herói cínico e durão que, dentre outras coisas, lutou na bem-sucedida guerra do Vietnã.

Relacionando o caso com uma série de infortúnios que acometeram outros vigilantes em anos passados, Rorschach decide visitar os outros heróis mascarados que conhece – apenas um deles continua na ativa – para alertá-los do que suspeita ser uma sistemática execução de seus colegas de profissão. (Foi uma defenestração que deu início à Guerra dos Trinta Anos – porque não pode ter grandes repercussões de novo?)

“Bem-sucedida guerra do Vietnã”? Não, você não leu errado. Uma das grandes inovações de Watchmen está em levar os super-heróis realmente a sério. Isto significa não achar verossímil um mundo, como o dos quadrinhos tradicionais, no qual eles existam sem grandes conseqüências geopolíticas. Pensem bem: se o Super-Homem realmente existisse na década de 40, a Segunda Guerra Mundial teria durado seis anos? É evidente que não. Sendo imune a balas e bombas, ele logo teria voado até a Alemanha e capturado todos os líderes nazistas; se bobear derrubava a União Soviética de sobremesa, pondo fim à Guerra Fria antes mesmo de ela começar. A verdade é que não podemos conviver razoavelmente com o fato de que existam criaturas super-poderosas sem que isso tenha profundas repercussões internacionais. As armas nucleares mudaram o mundo para sempre; que dizer de super-heróis?

Assim, Watchmen faz um ótimo exercício de imaginação, ao desenhar as implicações da existência de vigilantes mascarados. Inicialmente, surgem na década de 40 alguns desses malucos, que vestem fantasias e pulam de prédio em prédio procurando bandidos em flagrante para espancar. Sim, são malucos – o roteirista Alan Moore indaga sordidamente por que diabos alguém iria arriscar a vida de forma tão bizarra; e logo nos responde explorando – em todos os personagens – alguma frustração ou trauma.

Com o tempo, o fenômeno do vigilantismo vai ficando popular. Surgem mais encapuzados. Um banco cria seu próprio vigilante como golpe publicitário: um dia, a capa dele se enroscou na porta giratória de uma agência e ele, alvo fácil para os bandidos, foi baleado até a morte. (O enredo de morte de super-heróis por motivos fúteis, e de sua sistemática execução por alguma força misteriosa, foi recentemente transcrito, de forma infinitamente mais leve e muito saborosa, na animação Os Incríveis.).

Até que um dia surge um super-herói de verdade. Antes, tínhamos apenas pessoas normais, físico malhado e saúde mental notwithstanding, saindo por aí a desafiar o monopólio do Leviatã. Mas eis que surge, após um acidente num laboratório nuclear, uma criatura azul incrivelmente poderosa, capaz de movimentar objetos sem os tocar, destruir um tanque de guerra sem esforço, ou se transportar a grandes distâncias apenas com a força do pensamento. Rorschach e seus colegas – o Comediante, o Coruja, a Espectral, Ozymandias, dentre outros – estavam ultrapassados. Eis que surge o Dr. Manhattan. Logo é cooptado pelo governo de seu país, e um de seus funcionários põe-se a alardear: “Deus existe, e Ele é americano”.

Jon Osterman, o acadêmico que se transformou no Dr. Manhattan, não parece se importar muito com política. Ou com nada terreno. Ele é capaz de enxergar o futuro, e insiste que o tempo é uma jóia multifacetada que os humanos insistem em enxergar uma face de cada vez. Mas ninguém entende sua visão de mundo. Talvez ninguém possa. Mas se Osterman não se importa com nada, os soviéticos certamente o temem – estima-se que ele possa destruir uma fração significativa do arsenal russo em caso de uma investida all-out. Com esta significativa vantagem em mãos dos EUA, a Guerra Fria não é mais a mesma.

O Dr. Manhattan vai para o Vietnã, o que faz com que a guerra seja ganha em pouco tempo. Watergate nunca acontece. A popularidade de Richard Nixon é tamanha que ele consegue anular a 22ª Emenda, o que lhe permite servir um terceiro e logo depois um quarto mandato. Sim, o mundo de Watchmen é sinistro: é 1985 e Nixon é o presidente dos Estados Unidos. As inovações tecnológicas permitidas por Osterman aceleram um monte de coisas: os carros são a hidrogênio, e aqui e ali vemos um ou outro detalhe que nos indica engenharia genética.

Este é um dos pontos fortes da obra: existe uma enorme quantidade de sugestões escondidas; há tanta história pra ser contada que cada página está repleta de significados, sem que isso acarrete algo desagradável de se olhar. Uma primeira leitura irá apresentar a história sem que se perceba cada detalhe; são necessárias dezenas de releituras para apreender as centenas de elementos para os quais não se chama nenhuma atenção.

A investigação de Rorschach, se não nos mostra as nuanças que o leitor deve descobrir por si mesmo, leva-nos para as situações mais incríveis. Somos apresentados a um milionário e bem-sucedido herói aposentado que é muito mais do que parece; uma frustrada versão de um homem que suspeitosamente lembra o Batman; um estranho relacionamento entre o homem mais poderoso do mundo e sua namorada; e descobrimos que a vida de herói é algo violento e sem nenhum glamour.

Pelos olhos de um jornaleiro, vemos as diferentes tramas se encaixando; e sem que tenhamos nenhuma sensação de desconforto, viajamos por uma história que nos leva por vários lugares: o centro de Nova Iorque, um luxuoso apartamento, a área 51, um bar sujo e perigoso, e até mesmo o Pólo Norte… e o planeta Marte (!).

Eis que durante o que pensamos ser uma simples murder story nos é revelado um mundo muito maior e mais perigoso; e eis que durante a investigação um fato nos arranca da cadeira: o Dr. Manhattan abandona a Terra. E vai morar sozinho. Em Marte.

Com isso, a União Soviética lança uma invasão ao Afeganistão (algo que no mundo real aconteceu em 79; evidentemente, se Jon Osterman realmente existisse, Leonid Brezhnev teria pensado duas vezes). Richard Nixon é levado para a área 51. Somos apresentados a uma sala de guerra à la Dr. Strangelove e num painel são feitas simulações de um ataque nuclear. A tensão se eleva. Lição para os estrategistas: não confiar numa arma que tem
vontade própria.

A sufocante e alucinante seqüência de acontecimentos nos leva, numa montanha-russa cheia de sustos e arranques, a um diabólico esquema para impedir o inverno nuclear e garantir a paz mundial. Ultimately, porém, ele parece falhar, porque o gênio por detrás dele esqueceu de levar em conta algo que somente o Dr. Manhattan tem lucidez para avisá-lo: nada chega ao fim. Um plano para a paz mundial não pode durar, porque logo as coisas acabam mudando. Como já nos diz o bom velhinho, John Mearsheimer, o sistema é anárquico, e os Estados não podem projetar com segurança cenários no médio e longo prazos.

Infinitamente mais rica do que praticamente qualquer obra literária do século XX, o romance em quadrinhos que é Watchmen está sob ameaça de nunca vir ao grande público. Talvez o mundo pós-terça-feira (aquele ataque terrorista de setembro de 2001) não possa admitir o ato horrendo que é cometido para salvar o mundo; talvez o mundo pós-Guerra Fria não consiga mais entender o que era a ameaça do equilíbrio do terror. Uma pena.

Alan Moore nos traz profundas e importantes lições sobre o significado da Guerra Fria, a importância de mitos e heróis, e as possibilidades narrativas dos quadrinhos. Mais do que lições, ele nos instiga a fazer perguntas sobre as repercussões últimas de crenças políticas e o modo como enxergamos o mundo. E a forma como ele entrelaça, bem amarradas, várias histórias a um contexto de política internacional constitui obra-prima tanto em Arte quanto em Política.

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