Retorno Sagrado

Vindo do seu paraíso celestial, o Anjo desceu à Terra. Vinha envolto numa aura luminosa, resplandecendo de pureza e perfeição divina. As suas asas, de um branco impossível de ser visto em algo material, pareciam não fazer esforço algum, enquanto as penas tocavam o ar numa carícia doce.

Surgiu num jardim murcho, tristonho e sem vida. O dono preferiu remetê-lo ao esquecimento, ocupando esse tempo de verdadeira união com a Natureza em reuniões de negócios, resultantes de uma promoção profissional. Promoção essa que lhe dará o que sempre desejou: uma vivenda num sítio exótico, rodeado dos mais prestáveis empregados e extravagantes luxos.

O Anjo abanou a cabeça em sinal de leve censura, e estendeu os braços. A sua luz intensificou-se quase instantaneamente, e a aura expandiu-se de forma avassaladora, inundando todo o jardim. As ervas daninhas desapareceram, a ferrugem da correia do poço foi removida, a água tornou-se límpida, as folhas secas transformaram-se em flores e as laranjas podres em maduras e sumarentas.

O jardim vibrou com a energia que recebeu e com a nova vida que lhe foi oferecida. Só uma pequena flor não foi beneficiada pela luz: uma rosa, única numa roseira oferecida pela filha mais velha ao pai, que jurara tomar conta dela como se de uma segunda filha se tratasse.

O Anjo aproximou-se da flor e reparou nas suas pétalas descoradas, no seu caule seco e na sua tristeza profunda. Acariciou-a com um dedo, ternamente, e ela recuperou vagarosamente, à medida que as cores e a exuberância lhe voltavam. No final, emitiu um forte brilho cristalino de gratidão, brilho apenas visível aos olhos pacíficos do Anjo.

Ouviam-se gritos e choros dentro da casa. Voltando-se algo apreensivo, o ente do bem entrou. A casa estava cheia de cacos de porcelana espalhados pelo chão e pó que fazia o filho do meio espirrar vezes sem conta. Num lado estava o dono da casa; no outro, a mulher e os três filhos.

Próximo do homem estava alguém que o Anjo sabia que iria encontrar: lá estava ele, o Demônio, de semblante retorcido e asas vermelhas escuras. Olhava para o homem com um misto de divertimento e gozo estampado na cara.

– Olha para o que estás a fazer e ouve-me, pelo menos uma vez na vida! – gritou a mulher estridentemente. Desde que o marido metera na cabeça que queria ser promovido, dores de cabeça horríveis atormentavam-na diariamente. Já nem energia tinha para limpar a casa.

– Não te percebo, a sério que não te percebo – disse o marido com uma paciência exageradamente fingida – Agora que temos a oportunidade das nossas vidas é que tu queres ficar? É assim tão difícil para ti deixares de ser pobre?

– Pobre? – vociferou a mulher – Se ter uma casa com um jardim, dois carros e dinheiro para sustentar cinco pessoas é ser pobre, então estás muito a leste do que se passa cá por estes lados! Eu sei o que tu andaste a fazer para seres promovido, e não gostei mesmo nada. Tu já não estás interessado na nossa felicidade, pelo contrário, estás a transformar a nossa vida num autêntico inferno!

O Demônio sorriu abertamente, rejubilando aquele momento. A filha mais velha chorava, com os olhos vermelhos irritados, o filho do meio espirrava de trinta a trinta segundos e o mais novo tossia, possivelmente devido a uma doença não tratada. O Anjo achou a altura a mais apropriada para intervir: acalmou as lágrimas da rapariga, fez desaparecer o pó e atenuou o mau estado do pequenito, que tremia violentamente a cada espasmo provocado pela tosse. Em seguida, colocou-se ao lado do homem.

Anjo e Demônio estavam em lados opostos, cada um tentando puxar aquele marido e pai de família para o lado bom ou mau, numa luta morosa e complicada. O homem estava pasmado, maravilhado com a miríade de pensamentos opostos mas insistentes que lhe passavam pela cabeça e que não sabia que podia ter. Demorou um pouco a responder à mulher, que o ameaçava com o divórcio.

– Peço desculpa por te ter posto nesta situação, querida – disse – Não me apercebi do quão felizes éramos com o que tínhamos. Vou deixar de ser tão ambicioso e vou passar mais tempo a falar na sorte que tenho em ter-te como minha mulher.

– Oh, Carlos…- comoveu-se a mulher – Eu sabia que tu ias compreender…

Abraçaram-se e, num gesto ofensivo, o Demónio insultou o impávido e sereno Anjo.

– Bem, vou trabalhar, que já não aguento mais estar aqui.

– Carlos! – a expressão da mulher mudou assustadoramente.

– É verdade, está muito calor aqui dentro! – exclamou o homem. O Anjo sorriu. – Tenho mesmo de ir, não me posso atrasar. Hoje vou ter uma reunião de negócios muito imp… hum, quer dizer, hoje vou demitir-me. A promoção estava a custar-me o meu precioso jardim, e prefiro trabalhar menos horas para cuidar dele em condições. Já temos tudo o que precisamos… não precisamos de mais.

– Que bom! Fico muito contente – alegrou-se a mulher, aproximando-se do marido para se despedir dele.

– Tira as patas de cima de mim… maldito mosquito! – acrescentou o homem rapidamente, gesticulando no ar para espantar um inseto invisível. Aflito com o rumo que as coisas estavam a tomar e com a sua estranha incapacidade de controlar o que dizia, apressou-se a sair de casa. A mulher dirigiu-se para o quarto do filho mais novo, a fim de o tratar, e os restantes rebentos foram atrás.

O olhar calmo do Anjo e o olhar furioso do Demônio cruzaram-se por uma fração de segundo. O Demônio riu-se de forma amarga e sarcástica e saiu voando. No caminho derrubou um caríssimo e estimado jarrão de porcelana com uma das suas patas com garras. O acontecimento foi mais tarde interpretado pela família como uma corrente de ar especialmente forte. O Anjo sentiu o seu trabalho de momento ali terminado e saiu para o jardim. Os seus olhos pousaram-se em todos os pormenores e o seu olhar não julgava: era antes o reflexo do seu amor e compaixão que sentia incondicionalmente por toda a existência.

Deteve-se na rosa que a filha mais velha ofereceu ao pai. Com rápida precisão, arrancou-a e pisou-a até ficar completamente esmagada. Depois olhou para cima, sorriu e voou rumo ao paraíso celestial.

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