Mito e Mitologia

A história de Prometeu, acorrentado pelos deuses como castigo por haver-lhes arrebatado o fogo para entregá-lo aos homens, e a especulação sobre a existência do “bom selvagem”, criada para explicar a suposta evolução cultural da humanidade, apesar de tão claramente distintas e distantes, são quase unanimemente consideradas de caráter mítico.

Isso indica que o mito – apesar de ser um conceito não definido de modo preciso e unânime – constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo em que vive, como traduz por símbolos ricos de significado o modo como um povo ou civilização entende e interpreta a existência.

Mito é uma narrativa tradicional de conteúdo religioso, que procura explicar os principais acontecimentos da vida por meio do sobrenatural. O conjunto de narrativas desse tipo e o estudo das concepções mitológicas encaradas como um dos elementos integrantes da vida social é denominado mitologia.

A narração mitológica envolve basicamente acontecimentos supostos, relativos a épocas primordiais, ocorridos antes do surgimento dos homens (história dos deuses) ou com os “primeiros” homens (história ancestral). O verdadeiro objeto do mito, contudo, não são os deuses nem os ancestrais, mas a apresentação de um conjunto de ocorrências fabulosas com que se procura dar sentido ao mundo.

O mito aparece e funciona como mediação simbólica entre o sagrado e o profano, condição necessária à ordem do mundo e às relações entre os seres. Sob sua forma principal, o mito é cosmogônico ou escatológico, tendo o homem como ponto de interseção entre o estado primordial da realidade e sua transformação última, dentro do ciclo permanente nascimento-morte, origem e fim do mundo.

As semelhanças com a religião mostram que o mito se refere – ao menos em seus níveis mais profundos — a temas e interesses que transcendem a experiência imediata, o senso comum e a razão: Deus, a origem, o bem e o mal, o comportamento ético e a escatologia (destino último do mundo e da humanidade). Crê-se no mito, sem necessidade ou possibilidade de demonstração. Rejeitado ou questionado, o mito se converte em fábula ou ficção.

Mito e religião. Alguns especialistas, como Mircea Eliade, estudioso de história comparada das religiões, atribuem importância especial ao contexto religioso do mito. Com efeito, são muito freqüentes os mitos que versam sobre a origem dos deuses e do mundo (chamados, respectivamente, mitos teogônicos e cosmogônicos), dos homens, de determinados ritos religiosos, de preceitos morais, tabus, pecados e redenção.

Em certas religiões, os mitos formam um corpo doutrinal e estão estreitamente relacionados com os rituais religiosos — o que levou alguns autores a considerar que a origem e a função dos mitos é explicar os rituais religiosos. Mas tal hipótese não foi universalmente aceita, por não esclarecer a formação dos rituais e porque existem mitos que não correspondem a um ritual.

Nas religiões monoteístas, as mitologias, sobretudo as teogonias, são geralmente repudiadas como exemplos de ateísmo ou politeísmo, pois representariam uma desvirtuação do Deus único e transcendente, à medida que o relacionam a manifestações ou representações de outras criaturas. Entretanto, essas mesmas religiões também recorrem a descrições fantásticas, de caráter simbólico, para explicar a origem do mundo e do pecado, o fim do mundo e a vida ultraterrena, e não deixam de atribuir a Deus reações e sentimentos humanos.

O mito, portanto, é uma linguagem apropriada para a religião. Isso não significa que a religião, tampouco o mito, conte uma história falsa, mas que ambos traduzem numa linguagem plástica (isto é, em descrições e narrações) uma realidade que transcende o senso comum e a racionalidade humana e que, portanto, não cabe em meros conceitos analíticos.

Não importa, do ponto de vista do estudo da mitologia e da religião, que Prometeu não tenha sido realmente acorrentado a um rochedo com um abutre a comer-lhe as entranhas, nem que Deus não tenha criado o ser humano a partir do barro. Religião e mito diferem, não quanto à verdade ou falsidade daquilo que narram, mas quanto ao tipo de mensagem que transmitem.

A mensagem religiosa geralmente exige determinado comportamento perante Deus, o sagrado e os homens, e é, muitas vezes, formulada de forma compatível com conceitos racionais e em doutrinas sistematizadas.

O mito abrange maior amplitude de mensagens, desde atitudes antropológicas muito imprecisas, até conteúdos religiosos, pré-científicos, tribais, folclóricos ou simplesmente anedóticos, que são aceitos e formulados de modo menos consciente e deliberado, mais espontâneo, sem considerações críticas.

Mito e sociedade. Como forma de comunicação humana, o mito está obviamente relacionado com questões de linguagem e também da vida social do homem, uma vez que a narração dos mitos é própria de uma comunidade e de uma tradição comum. Não se conseguiu definir, no entanto, a natureza precisa dessas relações.

Alguns lingüistas admitem explicitamente a necessidade de uma ciência mais abrangente, como por exemplo uma nova ciência geral da semiologia, cuja tarefa seria estudar todos os signos essenciais à vida social, e uma nova psicologia, que caracterizaria inicialmente vários sistemas do conhecimento e da crença humanos.

O estudo da sociedade e da linguagem pode começar apenas com os elementos fornecidos pela fala e pelas relações sociais humanas, mas em cada caso esse estudo se confronta com uma coerência de tradições que não está diretamente aberta à pesquisa. Essa é a área em que atua a mitologia.

Algumas concepções mitológicas podem exemplificar a complexidade e a variedade das relações entre mito e sociedade. A tribo lugbara (do noroeste de Uganda e do Congo) utiliza um sistema conceitual para relacionar sua ordem sociopolítica a dois heróis ancestrais, relacionados, em contrapartida, à criação do universo.

As narrações sobre a evolução da tribo a partir de seus heróis ancestrais são apresentadas na forma de saga, embora a “história” mais primitiva seja contada em mitos. É notável, porém, que o único esquema conceitual do sistema social dos lugbara relacione o passado mítico e o genealógico (não-mítico) e que, em seu conjunto, seja expresso mais em categorias espaciais do que histórico-temporais.

A China antiga não apresenta um amplo sistema de mitos e, a esse respeito, difere marcadamente da China pós-clássica, com vasto número de mitos e deuses. Na China antiga, são feitas referências literárias a figuras e evoluções que parecem históricas, mas são, na verdade, historicizações de mitos anteriores, cuja forma mítica foi abandonada. Muitas dessas referências, especialmente em palavras atribuídas a Confúcio, abordam a natureza do estado e a qualidade dos governantes.

Freud deu nova orientação à interpretação dos mitos e às explicações sobre sua origem e função. Mais que uma recordação ancestral de situações históricas e culturais, ou uma elaboração fantasiosa sobre fatos reais, os mitos seriam, segundo a nova perspectiva proposta, uma expressão simbólica dos sentimentos e atitudes inconscientes de um povo, de forma perfeitamente análoga ao que são os sonhos na vida do indivíduo.

Não foi por outra razão que Freud recorreu ao mito grego para dar nome ao complexo de Édipo: para ele, o mito do rei que mata o pai e casa com a própria mãe simboliza e manifesta a atração de caráter sexual que o filho, na primeira infância, sente pela mãe e o desejo de suplantar o pai.

Para Carl Gustav Jung, discípulo de Freud e seu colaborador por muitos anos, os mitos seriam uma das manifestações dos arquétipos ou modelos que surgem do inconsciente coletivo da humanidade e que constituem a base da psique humana. A existência do inconsciente coletivo permite compreender a universalidade dos símbolos e dos mitos, pois que estes se revelam em todas as culturas e em todas as épocas de modo idêntico.

Mito e arte. Pelo caráter simbólico que reveste, o mito pode ser considerado manifestação artística e geradora de arte. Em cada povo e civilização, os mitos são fonte de inspiração para as mais diversas obras de arte, assim como as fantasias e criações imaginárias dos sonhos e dos estados alterados da consciência (como aqueles resultantes do efeito de algumas drogas) são também estímulos à atividade artística.

Os monumentos megalíticos, a disposição dos túmulos e a maneira de construir os templos são a expressão plástica da crença num destino ultraterreno e num vínculo do homem com a Terra e o universo. A própria arquitetura clássica, ao igualar a estrutura dos templos e dos palácios da administração civil, não fez mais que plasmar o mito do homem renascentista — aquele que se converte em centro do universo e acaba por proclamar deusa a sua própria faculdade racional. Desse modo, as culturas antimíticas — aquelas que rebaixam o mito a mera literatura — podem terminar por incorrer em novos mitos.

Uma conexão mais estreita, embora menos definida, pode ser apontada entre mito e literatura. O mito é originalmente uma narração oral espontânea que se cristaliza ao longo de gerações. A literatura tende a explicar, a clarificar e desenvolver o mito que havia nascido de forma fragmentária e, por vezes, pouco coerente.

À medida que é adaptado à esfera e às dimensões da vida humana, manipulado e elaborado conscientemente pelos indivíduos, o mito se dilui em suas características originais para tornar-se lenda, saga, epopéia, fábula, história, conto e novela. As sagas nórdicas, por exemplo, podem ser consideradas mitos menores, em que os povos que os criaram e difundiram projetaram seus ideais, mas sem aprofundar-se quanto à estrutura e os significados inefáveis e transcendentes, que se revelam apenas nos mitos.

2 respostas para Mito e Mitologia

  1. cintia disse:

    Amor !!

    Seu blog está fantástico. Adorei.

    Os poemas, os texto de mitologia e tudo sobre o que escreveu sobre vc, tudo está perfeito.

    Beijos, meu amor.

    Cintia

  2. Amar Yasmine do AQUILIS disse:

    Amado Amigo!

    Como tudo que fazes, este blog também tem a tua marca registrada de dedicação e busca pelo aprimoramento. Normalmente as pessoas começam bem e vão relaxando… Tu não, meu amigo. A cada dia cresces em tudo que fazes… nunca vi tanta dedicação em alguém, tanta busca pelo desenvolvimento e pelo apuro.

    Adoro mitologia, sobretudo a egípcia, por muitos motivos e principalmente por ter, cada um dos deuses do seu panteão, atribuído a um animal.

    Doces besos, querido Amigo!

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