Esperar

Quero esperar por ti
rocha no meio do rio,
inabalável,
resistindo à erosão dos anos,
do lodo verde;
freira ajoelhada
carpindo um rosário,
em curto-circuito,
alimentando o corpo
com um amor sem retorno,
murcho,
imutável,
pacientemente eterno;
como um fóssil incrustado num mármore,
conservado desde o início dos dias
até ao fim do universo;
como uma migalha de pão, esquecida na tua camisola,
saboreando o teu suor,
odor familiar
queimando na memória
como uma melodia chorosa,
a falar de sangue, propagando-se no vazio
entre os planetas até às muralhas que não existem;

Quero esperar por ti
como um flamingo cor-de-rosa,
apoiado ora numa perna ora noutra,
descansando o corpo estátua
congelado no espaço-tempo;
como um monge tibetano
treinando yoga, pernas entrelaçadas
por cima do pescoço
levitando a alma acima da cabeça
num reino de silêncio
e de certezas que a calma desvenda;
como um fantasma branco
despedido do mundo,
refugiado numa outra dimensão
onde tudo é imenso e vazio.

Quero esperar por ti
simplesmente,
por teimosia,
sentar-me na vida,
cruzando os braços,
entrelaçando as lágrimas e
esperar…

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